Cruzando a fronteira em direção ao céu: a memória da minha segunda descolagem no Porto

A primeira vez que entrei num avião foi um turbilhão de nervos tão denso que quase não me deixou espaço para reparar nos detalhes. O estômago apertado, as mãos húmidas agarradas aos apoios de braço e o olhar fixo em frente, a rogar para que o chão voltasse ao seu lugar. Por isso, na verdade, considero que o meu verdadeiro batismo aéreo aconteceu na minha segunda viagem, naquela manhã em que decidi partir rumo à Europa através do porto aeroporto.

Lembro-me da emoção do trajeto pela estrada antes do amanhecer. Cruzar a fronteira em direção a Portugal ainda tinha para mim aquele ar de pequena aventura, de fronteira entre o quotidiano e o desconhecido. Olhar pela janela e ver como se esbatia o pinhal e as curvas da autoestrada enquanto o nevoeiro matinal se levantava sobre o norte luso era o prólogo perfeito. Havia algo de quase solene em chegar a um terminal internacional vizinho para procurar um destino distante, como se a viagem começasse muito antes de pisar a pista de descolagem.

O aeroporto do Porto impressionou-me pela sua luz e pela sua ordem serena. Aquela estrutura de vidro, aço e tetos ondulados não transmitia o caos frenético que eu associava aos aeroportos grandes. Ao cruzar as portas automáticas com a mala de rodinhas a rolar ruidosamente ao meu lado, dei-me conta de que o pânico da primeira vez tinha dado lugar a uma curiosidade voraz. Já não era o passageiro receoso que se deixava arrastar pela multidão; agora observava cada passo do processo: o painel de partidas a piscar com nomes de capitais estrangeiras, a passagem firme pelo controlo de segurança e aquele aroma inconfundível a café acabado de fazer misturado com o perfume adocicado das lojas francas.

Fazer tempo na porta de embarque diante das enormes vidraças foi, sem dúvida, o momento em que me apaixonei por viajar. Sentei-me com um café quente entre as mãos a olhar para a pista. Os aviões de cauda azul, amarela ou vermelha iam e vinham orientados por operadores com coletes refletores e barras luminosas, como uma engrenagem perfeita onde nada ficava ao acaso. Ver aquele balé mecânico transmitiu-me uma paz inesperada: voar já não era desafiar a sorte, mas sim confiar numa coreografia precisa e mil vezes ensaiada.

Quando finalmente subi a manga de embarque e encontrei o meu lugar junto à janela, o coração deu um salto, mas desta vez de pura expetativa. O avião rolou até à cabeceira da pista, os motores rugiram com uma força que vibrou diretamente no peito e, numa questão de segundos, o terminal de Sá Carneiro ficou em baixo, apequenado entre o verde dos campos e a linha azul do Atlântico a despontar ao fundo. Nessa segunda descolagem compreendi que o mundo se tinha tornado acessível, e que a partir daquela pista lusa se abriam todos os caminhos possíveis.